Deep below,
Each word gets lost in the echo
Segunda-feira, 22 de Setembro de 2014

The Only Exception | 12

Louise estava deitada de costas na cama há quase meia hora. Ausente, enrolava uma mescla de cabelo no dedo indicador da mão direita, enquanto revia o seu dia até ali. A memória mais viva e presente era a de Nate, talvez por isso ainda não tivesse conseguido desfazer-se do sorriso aparvalhado que lhe enfeitava o rosto, desde que batera a porta do quarto e ficara sozinha. Não estava caquética e recordava-se perfeitamente de como ele era desagradável o tempo todo; mas a sua personalidade não lhe permitia guardar ressentimentos. Quando ele não estava a fazer troça de si, realmente parecia ser uma pessoa bonita e interessante. Era assim que ela o via, era dessa perspectiva que Louise encarava o desafio. Uma batida na porta anunciou Letizia que espreitou logo de seguida e lhe sorriu alegremente.

- Ó, vejo que estás bens instalada. – Comentou, seguida de um gracejo simpático. Louise sentou-se na cama de pernas cruzadas e sorriu.

- Estou sim, obrigado. – Respondeu. – Precisa de ajuda com alguma coisa?

- Não, querida. – Disse sinceramente, abanando a cabeça. – Preciso que desças, vou servir o jantar.

- Ó! – Exclamou um pouco atrapalhada, levantando-se de imediato.

Calçou os chinelos e troteou na frente de Letizia até á sala de jantar em silêncio. Quando chegou, viu Thomas sentado numa das cabeceiras, Garey do seu lado esquerdo e Nate do seu lado direito distraído enquanto mordiscava uma côdea de pão. Ao seu lado estava uma rapariga alguns anos mais nova do que ambos fisicamente; mas que intelectualmente inevitavelmente deveria ser muito mais parecida com o irmão do que deixava transparecer. Estava agarrada a um pedaço de uma folha de jornal, concentrada no que fazia e de lápis na mão, fazendo uns rabiscos aqui e acolá.

Sentou-se ao lado do pai em silêncio, que lhe deu um leve encosto de ombros e lhe sorriu quando finalmente se acomodou no seu lugar. Ninguém prestara atenção na sua chegada e ela até agradecia. Esticou o braço para chegar a um pedaço de pão; mas uma vez mais fora traída pelo acaso e em vez de segurar o pão, a sua mão chocou na de Nate que se servia de mais um pedaço. Quando os olhos de ambos se cruzaram, sentiu o rosto inflamar. Ele, porém, parecia sereno e nada afectado pelo novo incidente e era isso que a deixava verdadeiramente apreensiva. Sentia-se ignorada e inferiorizada o tempo todo por ele. Retirou a mão rapidamente, escondendo-a no colo debaixo da mesa e baixou o rosto. Perdera a vontade de comer pão.

Nate permaneceu atento a ela, ligeiramente constrangido e no final decidiu que deveria ser ela a ficar com o pedaço de pão. Havia algo em Louise que fazia surtir efeitos peculiares e sem explicação no mais ínfimo do seu ser. Sentia uma necessidade fora do comum de a afastar e ser rude era apenas um princípio básico quando pretendia fazê-lo. Usava-o com a maioria das raparigas. As raparigas estúpidas. Mas com ela apesar de se tornar algo semelhante, reconhecia que o fazia instintivamente, como se pretendesse proteger-se dela e de tudo o que ela representava para si: uma ameaça ao seu coração. Uma distracção.

Ela era espontânea e carismática. Verdadeira também; mas a inocência aliada aquele seu senso de estupidez natural incendiavam algo inexplicável dentro do seu peito. Não suportava tanta imbecilidade junta, era um facto; mas algo lhe dizia de que não era somente esse o motivo que o fazia agir de forma intempestiva e arrogante sempre que estavam na mesma divisão. Não resistia. Estendeu o braço por cima da mesa na direcção dela e pousou o pão na frente dela. Louise abriu a boca horrorizada com aquele gesto de simpatia. O primeiro. Levantou o rosto e os olhos para ele e mirou-o por instantes com um ar inexpressivo. Ele abanou a cabeça sem mexer a boca, incitando-a a comer o pão e Louise sorriu, inclinando a cabeça discretamente para lhe agradecer. Depois, Nate focou a sua atenção em Thomas que o abordara com um assunto de trabalho e ela ficou apenas a observá-lo, enquanto debicava o pão.

- Mano.

Ouviu-se muito baixinho do outro lado da mesa. A rapariga agarrava agora as fraldas da camisola de Nate, clamando por alguma atenção da sua parte.

- Mano ajuda-me com-

Nate olhou para a irmã pronto a atendê-la; mas ela tinha-se retesado repentinamente como se se tivesse lembrado de algo. A rapariga olhou para Louise e sorriu enviusado. E Louise podia ver nela e na sua expressão o delinear de uma fina ruga de malvadez infantil. Sorriu um pouco intimidada e debicou o pão que tinha na mão lentamente, olhando para o tecto de vez em quando.

- Ellen pára de encará-la. Estás a deixá-la desconfortável.

O murmúrio de Nate fora conveniente e Louise agradecia; porém, não deixava de fazê-la questionar sobre o porquê da súbita e repentina mudança de atitude. Ainda que temporária ou que de uma actuação se tratasse estava a deixá-la um pouco desconfortável. A rapariga agarrou-se a Nate e balbuciou o seu desagrado de forma mimada e algo egoísta.

- Eu não estava a fazer nada. Não posso olhar? – Perguntou baixinho. Nate sorriu e esfregou a cabeça da mais nova com uma das mãos. – Não faças isso! – Exclamou aborrecida, endireitando-se na cadeira. – Despenteaste-me.

Ele abanou a cabeça e deixou escapar uma gargalhada alegre.

- Estás a exagerar pequena. De que precisas?

Ellen fez um trejeito aborrecido e voltou a olhar para Louise com algum interesse.

- Eu acho que, – Deteve-se de novo, olhando de Nate para Louise com um sorriso cúmplice e intencional. – Eu acho que prefiro a ajuda dela. – Apontou para Louise, que quase se engasgou com o pão que mastigava.

- Eu? – Perguntou de olhos arregalados, apontando para si mesma. Ellen acenou a cabeça e gracejou, ante a sua aflição. – Tens a certeza?

- Tenho. Número dez vertical, não consigo descobrir a palavra. – Disse, estendendo-lhe o pedaço de papel.

Louise tossicou atrapalhada e riu nervosa. Tirou-lhe o papel da mão e sorriu. Sentia-se verdadeiramente desconfortável, palavras cruzadas eram a sua desgraça. Porém, também não tinha coragem para desiludir Ellen. Olhou para o papel e por instantes optou por um silêncio resoluto. Sabia que Ellen a observava intencionalmente e Nate embora não demonstrasse um interesse directo pela situação, parecia atento e expectante em relação ao resultado que se adivinhava desastroso.    

Preparado farmacêutico, açucarado ou glicerinado que contém substâncias aromáticas, bases medicamentosas e se dissolve numa solução que contenha uma percentagem de álcool. Leu e releu a dica até finalmente chegar a uma solução. Pela primeira vez conseguira encontrar a resposta á charada sem piada. Entregou-lhe o papel e com um sorriso orgulhoso fê-la saber que na verdade estava em perfeitas condições para a ajudar.

- Exilir. A palavra é exilir. – Disse confiante.

- Hum? – Ellen murmurou tentada a rir.

Inocentemente e sem perceber onde estava o seu erro Louise gracejou.

- Número dez vertical, a palavra certa é exilir. – Repetiu num murmúrio coagido pela risada abafada de Nate do outro lado da mesa.

- Mano! – Exclamou Ellen falsamente aborrecida, virando-se para o irmão. Sabia de antemão que a resposta estava correcta embora mal pronunciada; mas não resistira. Louise não tinha caído nas suas boas graças ainda. – Está certo? – Perguntou.

Nate apreendeu o papel e mirou-o circunspecto, lendo a dica com atenção e depois riu discretamente. Tal como tinha pensado. A resposta dela não estava longe da verdade; mas o seu inglês era facilmente mal interpretado e por ela, mal pronunciado. Que mais poderia fazer a não ser rir? Ela era realmente estúpida para começar e ingénua por não ter percebido a artimanha da mais nova.

- Elixir. A palavra correcta é elixir. – Respondeu serenamente, olhando de Ellen para Louise com um sorriso trocista.

- Hum? – Parecia confusa. Elixir? Perguntava-se. Nem queria acreditar que ele estava de novo a corrigi-la, sentia-se realmente estúpida. – Elixir. – Murmurou. Não voltaria a esquecer-se daquela palavra ou voltaria? Estava a ficar deprimida. – Exilir, elixir. Não andei longe da verdade. – Relevou, rindo nervosa.

- Uma troca de sílabas faz toda a diferença na correcção de um exame, sabias disso? São pontos que perdes quando escreves errado. Burra! – Disse Ellen francamente desapontada.

Esperava vê-la passar no seu mini teste e até mesmo superar as suas expectativas; mas ela falhara. Letizia entrou na sala de jantar e parou abruptamente estupefacta com a reacção mal-educada de Ellen. Pousou as travessas na mesa e olhou para a filha de olhos semicerrados.

- Ellen! – Exclamou num tom repreensivo. – Isso é jeito de tratar as visitas?

Louise baixou o olhar para a mesa constrangida. Não pretendia causar tamanho desconforto a ninguém, sentia-se um verdadeiro estorvo para todos. Ellen cruzou os braços e olhou de lado para Louise.

- Ela não é nenhuma visita. - Murmurou – É hóspede. – Cuspiu de lágrimas nos olhos, abandonando a mesa repentinamente.

- Ellen! – Letizia ainda berrou por ela desconcertada; mas não conseguiu detê-la.

Ouviu-a correr escadas a cima e depois Thomas a confortar Letizia, obrigando-a a sentar-se para iniciarem a refeição. Com o decorrer do jantar a interacção tornou-se menos forçada e mais natural entre os adultos. Louise, porém, ainda não tirara os olhos do prato. Fora simpaticamente servida por Letizia, dissera sim a tudo; mas a verdade é que perdera o apetite. Nate permanecera calado a refeição toda, o único instante em que tirara os olhos do prato fora para pedir licença para se retirar. Pouco depois ela fazia o mesmo, estava a precisar dormir e reflectir sobre todos os acontecimentos daquele primeiro dia em Nova Iorque.

- Posso retirar-me? – Perguntou baixinho, olhando para o pai.

Letizia agarrou-lhe uma mão e espreitou o prato da rapariga, parecendo um pouco surpresa com a sua falta de apetite.

- Mas não comeste quase nada, querida. – Comentou.

Louise deixou escapar um gracejo entristecido e afastou o prato.

- Obrigado pelo jantar, estava óptimo; mas eu não estou com muito apetite. Desculpe. – Disse muito francamente. Letizia acariciou-lhe a mão e relevou, jamais a obrigaria a comer. – Posso retirar-me? – Perguntou novamente.

- Claro querida, vai descansar.

- Obrigado. – Murmurou, olhando depois para o pai para obter a sua permissão de igual forma.

Garey suspirou e sorriu enternecido, inclinando-se para lhe dar um abraço e um beijo na cabeça. Entendia perfeitamente o desconforto e a mudança de humor da filha, não correra como haviam imaginado e para Louise estava a revelar-se particularmente difícil, porém, aquele seu coração de ouro era forte e sabia que ela receberia aquele desafio mais cedo ou mais tarde com a mesma disposição com que enfrentara a ausência de Reiko. Não poderia ser pior.

- Vai princesa, descansa. E não penses muito no assunto. – Segredou-lhe paternalmente, despedindo-se dela com um último beijo, desta vez na testa.

Louise sorriu e retirou-se desejando boa noite a Letizia e Thomas. Quando chegou à porta do quarto ouviu uma outra porta abrir, olhou por cima do ombro e viu Nate sair da casa de banho em pijama e a limpar a cabeça com uma toalha. Mirou-o apenas por instantes embevecida e verdadeiramente agradada, porém, ao vê-lo aproximar-se apressou-se a entrar.

Preparava-se para vestir o pijama quando duas batidas na ombreira da porta apenas encostada anunciaram a presença de alguém. Que não seja ele por favor. Pediu de olhos fechados, sem coragem para se virar ou responder. Voltaram a bater; mas a ausência de resposta incentivou a pessoa a entrar.

- Hey! – Exclamaram atrás de si.

O timbre rouco de Nate soou atrás dela, fazendo-a pinchar e sentir calafrios enregelados por todo o corpo. Engoliu em seco e rodou sobre os pés para o enfrentar.

- Fiz alguma coisa errada? – Perguntou preocupada.

Nate sentiu-se tentado a rir; mas por algum motivo a sua expressão gelada não se desfez. Nem sabia tão pouco porque estava ali.

- Não propriamente. – Respondeu cautelosamente. – Este quarto era do meu irmão mais velho, tudo o que era dele foi removido para colocar tudo isto. – Disse, olhando em volta com um trejeito algo incomodado. – A Ellen preservava este espaço com medo de se esquecer dele. – Comentou serenamente.

O assunto parecia causar-lhe algum mal-estar. Louise olhou para os pés por instantes e com um suspiro infeliz voltou a olhar para ele. Como poderia adivinhar? Agora entendia a reacção de Ellen e a aversão que tinha por si.

- Eu não sabia. Desculpa. – Murmurou.

Nate relevou com um aceno.

- Procura não me causar mais problemas. – Disse antes de sair.

- Mas… Mas- – Tartamudeou verdadeiramente embasbacada. Perguntava-se quando foi que lhe causara problemas. – Estúpido. – Murmurou entre dentes, vendo-o sair do quarto.

- Eu ouvi isso. – Ouviu-o resmungar já no corredor.

Louise baixou o rosto e suspirou aborrecida. Ouvido tísico. Pensou. Não falara assim tão alto; mas ele parecia sempre demasiado atento ao que dizia. Parecia até que fazia de propósito. Troteou até à porta e apressou-se a fechá-la. Encostou-se por instantes a ela em silêncio e depois de alguns minutos de reflexão vestiu o pijama e deitou-se.

 

Este ficou grande! Peço desculpa pela demora; mas entretenho-me com outras coisas e acabo por ficar sem tempo ou disponibilidade para vir escrever. Também ainda não consegui organizar, tipo cronograma, as minhas ideias e perco dias a tentar dar um rumo à história de forma a não se tornar confusa ou cansativa. Anyway, everyone I hope you enjoy this one.

publicado por a.nee às 18:31
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2 comentários:
De • Smartie a 22 de Setembro de 2014 às 19:30
A Ellen ainda consegue ser pior que o Nate, bolas :O Mas pronto, é uma criança e agora já se percebe porque é que ela reagiu assim...pode ser que com o tempo melhore :\
O Nate pelo menos já teve um gesto simpático para com a Louise, nem tudo é mau :3
Mais! :)
Beijinhos*


De sacha hart a 29 de Setembro de 2014 às 17:20
Não sei como é que não me apercebi da existência deste capitulo!
Adorei, é capaz de ser dos que mais gostei até agora. Finalmente houve uma reacção positiva do Nate, e ao menos fiquei a perceber porquê que ele era tão mauzinho para ela. E gostei do novo drama. Quando li a reacção da Ellen não entendi mas agora faz sentido!


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The Only Exception


Nathan Vanderbilt tinha uma vida normal - até ao dia em que conheceu o seu pior pesadelo: Louise McKenzie. Sério, frio, calculista, prepotente e irrepreensivelmente inteligente e popular no colégio; enquanto Louise não passa de uma rapariga normal com notas medíocres; sonhadora, sensível, intensa e verdadeira espera reunir as condições necessárias para se aproximar do coração enregelado do filho mais velho dos Vanderbilt a quem nunca nenhuma namorada se lhe conheceu. Numa luta interior constante, Nathan irá perceber que não tem como fugir á realidade, à novidade e aquilo que sente pela filha do melhor amigo do pai.

SOBRE A HISTÓRIA.


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Ana. 29 anos. Licenciada em Engenharia Informática. Seguros. Música. Ler. Escrever. 30 Seconds To Mars. Aaron Yan. Muse. Linkin Park. Green Day. Three Days Grace. Snow Patrol. Kings Of Leon. Paramore. Game Of Thrones. Switched At Birth. Suits. Once Upon a Time. Teen Wolf. Heart Of Dixie. Covert Affairs. Arrow. The Flash. Bones. Hawaii Five-O. Nashville. The Fosters. KDrama.


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