Deep below,
Each word gets lost in the echo
Domingo, 19 de Outubro de 2014

The Only Exception | 14

Garey esteve ausente durante o jantar. Era domingo e por norma ele guardava esse dia para Louise; mas com tantas pastas para ler na empresa acabou embrenhado o serão todo. Depois do jantar Louise subiu para descansar; mas a ausência de Garey deixava-a inquieta. Levantou-se e de chinelos nos pés, desceu às escuras até à sala sem fazer barulho. Deitou-se no sofá, agarrada a uma almofada e esperou. Esperou até não aguentar mais a pressão e o cansaço dos olhos. Fechou-os por instantes e logo depois deixou-se cair num sono leve. Jamais dormiria descansada sem saber que o pai estava bem.

Perto das duas da madrugada uns ruídos no hall sobressaltaram-na. Levantou-se, achando ser o pai e numa correria deambulante aproximou-se para o receber. Atirou-se, em meio à escuridão da divisão para os braços de quem quer que ali estivesse, recebendo-o com um beijo no rosto.

- Papá. – Murmurou alegremente.

Porém, o resmungo quase imediato e aborrecido que tão familiar lhe começava a parecer, fê-la afastar-se aos tropeções. Era Nate.

- O que é que estás a fazer? – Resmungou impacientemente. Louise fez um trejeito enfadado e bufou desorientada.

- Ó! – Exclamou surpresa. – És tu.

Nate acendeu a luz e pousou o copo de água que detinha em mãos no corrimão das escadas para sacudir o pijama molhado. Louise observou-o de perto e abriu muitos os olhos e a boca quando percebeu o que tinha feito. Aproximou-se rapidamente para o ajudar e de uma forma atrapalhada acabou desajeitadamente numa posição comprometedora. Agarrada ao peito dele, tentando tirar-lhe a camisola para a secar.

Ele recuou aos tropeções com uma expressão gravemente acentuada, enquanto acompanhava atento a investida incansável das mãos da rapariga. Tentou sacudi-las na primeira oportunidade que conseguiu agarrar; mas revelara-se um verdadeiro fiasco. Louise insistia em ajudá-lo, quando na verdade não precisava de ajuda alguma. Do seu ponto de vista trocar um pijama não era assim tão difícil, não havia necessidade de secar aquele. Ó céus! Pensou aborrecido. Bufou irritado e com um revirar de olhos, procurou fintá-la; mas mais uma vez sem sucesso. Começava a sentir-se ligeiramente frustrado.

Louise de alguma forma parecia não querer desistir do seu intento e a sua insistência algo inocente, começava a parecer-lhe mais uma estratégia de assédio à sua pessoa do que uma tentativa de auxílio. Obviamente não o era, Louise era demasiado verdadeira, jamais perderia tempo com jogos de sedução e ele sabia disso. Como? Um palpite. Não deixava, porém, de se sentir um pouco sufocado. Não é que não apreciasse o seu esforço; mas o seu desespero proveniente de algo tão insignificante, na sua opinião, em ser-lhe útil estava a enervá-lo profundamente.

- O que pensas que estás a fazer McKenzie? – Rosnou-lhe, afastando-a com um safanão pouco simpático.

Louise deteve-se de olhos arregalados e braços erguidos como se tivesse acabado de ser detida pelas autoridades. Nem ela sabia o que estava a fazer, como poderia responder aquela questão pertinente? Engoliu em seco, ao observar de perto que o tinha feito perder as estribeiras. Nate revirou os olhos e ignorou-a por instantes, enquanto terminava de sacudir a camisola do pijama.

- Só estava a tentar a ajudar. – Murmurou, baixando os olhos para os pés.

Nate parou o que fazia e mordeu o interior da bochecha incomodado. Não sabia se com ela, com a situação em si ou consigo próprio por se sentir sempre tentado em responder-lhe antipaticamente e de forma algo violenta. Respirou fundo e com um suspiro frustrado e algo culpado tirou a camisola e estendeu-a na direcção da rapariga.

- Hey!

Louise ergueu o rosto e recuou um passo aos tropeções ao vê-lo em tronco nu. Atrapalhada, cuspiu alguns despautérios que quase o fizeram descer daquela pose austera e séria que sempre ostentava, tal não era a vontade de rir.

- Veste-te! – Exclamou, cobrindo os olhos com as duas mãos de imediato.

- Hum? – Nate parecia confuso; mas igualmente divertido. A inocência de Louise fascinava-o, porém, era algo que preferia admirar em segredo sem se comprometer. – Mas ainda agora querias que a despisse... – Comentou falsamente perturbado. – Mulheres.

- Eu… Eu… Eu claramente não estava no meu perfeito juízo. – Tartamudeou nervosa, espreitando por entre os dedos. – Ah! – Suspirou atrapalhada. – Veste-te!

Nate calou uma gargalhada com a mão livre e endireitando-se, voltou a falar-lhe firmemente e em tom de provocação.

- Vais obrigar-me a vestir uma camisola molhada? – Perguntou.

Louise abanou a cabeça e arrastando-se até ele de costas tirou-lhe a camisola da mão de repelão. Não pensou muito no assunto, na verdade, no instante em que segurou a camisola a primeira coisa que lhe ocorreu foi sair dali, por isso destrambelhadamente e aos tropeços correu até à cozinha. Agarrada ao peito, olhou por cima do ombro e suspirou aliviada por se encontrar sozinha e longe de Nate. Como é que ele se atrevia a provocá-la daquela forma? Assassinar o que restava da sua sanidade mental deveria ser considerado crime. Endireitou-se, olhando para a camisola que tinha nas mãos e sorriu. Não precisou chegar o nariz ao tecido para sentir o odor quase venoso de Nate. Com uma risada silenciosa, troteou apressadamente até à lavandaria e trocou a camisola molhada por uma outra enxuta e regressou a correr até ao hall.

Não queria vê-lo doente, tão pouco permitiria que ele se pavoneasse desnudo pela casa. Como poderia permanecer sã, se ele continuasse em tronco nu? Afogueada, chegou à beira dele para lhe entregar a camisola enxuta, porém, um tropeço valeu-lhe mais um embaraço. Teve tempo de chamar por ele, de o ver virar-se na sua direcção e no instante seguinte quando se apercebeu estava caída sobre o corpo dele, emaranhada nos seus braços firmes e musculados. Não teve tempo de raciocinar, se duvidasse tinha até esquecido o seu próprio nome naquele momento. Curiosamente, Nate ofereceu-lhe os braços instintivamente e caíram ambos nas escadas. O baque foi silencioso, por isso, ouviu-o cuspir uma interjeição de dor. Fechou os olhos e mordeu o lábio inferior embaraçada. Sou tão desastrada. Pensou frustrada.

Nate suspirou e rosnou qualquer coisa imperceptível que ela fingiu não ouvir. Frustrado tentava encarar aquela situação embaraçosa como mais um percalço provocado por aquela rapariga desastrada; mas não conseguia. Não conseguia aguentar a irritação que ela provocava em si. Era tão avassaladora que em outras circunstâncias e se por mero acaso não fosse rapariga tê-la-ia esmurrado imediatamente.

- McKenzie. – Rosnou-lhe baixinho, por entre dentes.

Louise abriu um olho e por instantes, não conseguiu reagir. Até respirar, ela achava que tinha deixado de o fazer. Com a testa franzida e os olhos semicerrados, espreitou e viu as suas mãos estateladas directamente no peito desnudo dele. Abriu muito os olhos e a boca apavorada. Estúpida. Estúpida. Pensou horrorizada. Rebolou para o lado e caiu de rabo no chão. De todas as situações caricatas em que se havia envolvido aquela era definitivamente a pior. Arrastou-se no chão até se encontrar a uma distância consideravelmente segura e depois olhou para Nate, que se levantou com um esgar de dor e a esfregar as costas.

- Nathaniel desculpa. – Murmurou cabisbaixa.

- Desculpa não é o meu nome do meio, porque não paras de pedir desculpa? – Respondeu rudemente, vestindo a camisola apressadamente.

- Desculpa. – Engoliu em seco quando o viu franzir o sobrolho e a bufar de irritação. – Não consigo evitar. – Disse baixinho.

Nate permaneceu fielmente no mesmo lugar a olhá-la indefinidamente com uma expressão grave, fazendo-a sentir-se um verdadeiro insecto perturbante. Não lhe disse o que pensava, talvez para a poupar a mais um embaraço ou por piedade. Louise não sabia o motivo do silêncio quando ele sempre tinha algo a apontar-lhe; mas também não tinha coragem de quebrar o silêncio. Viu-o por isso, pouco depois a segurar o corpo de água e subir para o quarto.

Naquele instante, sentiu vontade de chorar. Quanto mais pensava no assunto e nas circunstâncias mais vontade de chorar tinha. Cerrou os punhos e bateu-os no chão irritada. Sentia-se uma pessoa extremamente vulnerável quando ele a massacrava daquela forma. Queria chorar até ficar desidratada e era isso que a assustava. Por norma, não era uma pessoa demasiado emotiva; mas ele aflorava aquela parte de si que até então lhe era desconhecida. A única altura em que chorara fora aquando do falecimento da mãe. Jamais alguém a vira chorar com tanta frequência até aquele fatídico dia.

Sacudiu a cabeça e limpou os olhos com as costas das mãos, determinada a não lhe dar aquele tipo de satisfação. Escondeu o rosto por entre os joelhos flectidos e esperou por Garey que chegou minutos depois. Trazia no rosto um conjunto de rugas que evidenciavam o cansaço provocado pelas longas horas de trabalho. Louise levantou-se a atirou-se nos braços dele, fazendo-o deixar cair a pasta.

- Papá! – Exclamou agarrada ao pescoço dele.

Garey gargalhou roucamente e apertou-a de encontro ao seu peito. Apesar da reacção tipicamente normal da filha, reconhecia de longe a insuficiência de afecto que aquele abraço transmitia. Ela precisara dele naquele dia e ele não estivera presente e isso era doloroso.

- Desculpa querida, eu sei que o Domingo é reservado apenas para ti; mas aproveitei que estavas a estudar para adiantar alguns assuntos importantes.

- Não faz mal. – Murmurou de encontro ao pescoço dele. – Papá deixa-me dormir contigo. Só hoje.

Como poderia ignorar um pedido daqueles? Com um sorriso afectado, apertou-a com força sem a magoar. Louise só sabia pedir colo e socorro daquela forma e por isso, sentia-se culpado por não ter estado ali quando ela precisou. Afastou-a um pouco de si e mirou-a afectuosamente. De coração apertado, envolveu-lhe o rosto por entre as suas mãos com carinho e beijou-lhe a testa.

- Não precisas pedir querida. Vamos, está tarde e a manhã tens de levantar-te cedo.

Segurou-a no colo, como quando era pequena e levou-a até ao quarto para a deitar. Depois de um duche muito rápido, Garey finalmente pôde deitar-se. A primeira reacção de Louise, já adormecida há alguns minutos foi aninhar-se junto a ele e solicitar o calor do seu braço. Tal e qual como quando era pequena. Não recusou a carência e adormeceu a abraçado á filha, esperando ser o suficiente para a ver sorrir no dia seguinte.

 

Este demorou mais tempo a vir que o normal; mas não havia meio de a vontade vir para o terminar. Espero não levar demasiado tempo a escrever o próximo. XiéXié ni.

publicado por a.nee às 12:27
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2 comentários:
De sacha hart a 19 de Outubro de 2014 às 17:45
Estou tão feliz por finalmente ter um novo capitulo para ler!
E que capitulo! O meu coração apertou-se durante quase todo o capitulo, não podia deixar de sentir compaixão pela Louise que só tenta fazer as coisas bem mas saem-lhe mal. Depois o Nate não ajuda nada, não é? Mas mesmo assim adorei o capitulo (:


De • Smartie a 19 de Outubro de 2014 às 18:38
Coitada da Louise, realmente nada lhe sai bem ^^'
Gostei do capítulo, fico à espera do próximo :3
Beijinhos*


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The Only Exception


Nathan Vanderbilt tinha uma vida normal - até ao dia em que conheceu o seu pior pesadelo: Louise McKenzie. Sério, frio, calculista, prepotente e irrepreensivelmente inteligente e popular no colégio; enquanto Louise não passa de uma rapariga normal com notas medíocres; sonhadora, sensível, intensa e verdadeira espera reunir as condições necessárias para se aproximar do coração enregelado do filho mais velho dos Vanderbilt a quem nunca nenhuma namorada se lhe conheceu. Numa luta interior constante, Nathan irá perceber que não tem como fugir á realidade, à novidade e aquilo que sente pela filha do melhor amigo do pai.

SOBRE A HISTÓRIA.


Profile

Ana. 29 anos. Licenciada em Engenharia Informática. Seguros. Música. Ler. Escrever. 30 Seconds To Mars. Aaron Yan. Muse. Linkin Park. Green Day. Three Days Grace. Snow Patrol. Kings Of Leon. Paramore. Game Of Thrones. Switched At Birth. Suits. Once Upon a Time. Teen Wolf. Heart Of Dixie. Covert Affairs. Arrow. The Flash. Bones. Hawaii Five-O. Nashville. The Fosters. KDrama.


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